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30 de Outubro de 2020

"Nada Menos que Tudo": vale a pena ler o livro do Janot?

Minha opinião sobre o livro de memórias do ex Procurador-Geral da República

Dalisson Miranda, Estudante de Direito
Publicado por Dalisson Miranda
ano passado

Em meio a conturbada crise política que parece atingir o seu clímax, Rodrigo Janot, ex Procurador-Geral da República, lança o seu livro “Nada Menos que Tudo: bastidores da operação que colocou o sistema político em xeque”. A pergunta é: por que ler um livro com esse tema quando a mídia como um todo, filmes e até série na Netflix, já tratam o assunto que parece esgarçado e a própria sociedade está saturada?

Ora, o ex PGR não é qualquer pessoa, mas é exatamente aquele que, certamente, é um dos responsáveis pela lava-jato ser o que se tornou. Talvez a revelação dos seus bastidores pudesse trazer fatos bombásticos e jogar luz sobre fatos que ainda permanecem obscuros.

Nada disso. Aliás, bombástico mesmo foi a revelação do próprio, numa entrevista antes do lançamento do livro, ao dizer que pretendia matar um ministro do Supremo e se matar em seguida. Digo “bombástico” talvez com certa “forçação de barra”, pois isso implicou mais em consequências políticas do que jurídicas. E mesmo as consequências políticas não foram as mais desastrosas. Mas enfim, essa revelação, somada ao interesse particular de entender a própria lava-jato, me levou a ler o livro.

De início, deixo claro: essa “bombástica” revelação do ex PGR é frustrante: na entrevista dada ao jornal “O Estado de S. Paulo”, em que a revelação foi feita, ele fala mais sobre o assunto do que no próprio livro, onde somente ao final, em algumas pouquíssimas linhas, ele faz uma rápida menção a isso. Nada de citar nomes, descrever os fatos e nada mesmo de dizer que se mataria em seguida. O trecho passaria tranquilamente despercebido se não fosse a prévia revelação na entrevista ao jornal, explorado, talvez, com certo sensacionalismo. Então, se o objetivo é saber o que se passou especificamente sobre esse fato, é melhor ler a entrevista, o livro mesmo, nesse aspecto, não traz nada de mais.

Entretanto, não sendo este o assunto principal do livro, o autor faz uma explanada dos seus 4 anos à frente do MP, de 2013 a 2017, de onde conduziu, sob críticas e elogios, as denúncias que derrubariam muitos políticos. Com uma dose imensa de subjetividade, talvez até exagerada em alguns aspectos, é preciso ler o livro “com um pé atrás”. É preciso ter em mente que o que está sendo contado ali é decorrente da própria visão e interpretação do autor, e, apesar dele mesmo fazer essa ressalva em alguns trechos, não se pode perder de vista essa dose de ceticismo.

Ressalvados esses pontos, quais sejam, as promessas de revelações bombásticas que não ocorreram e a subjetividade escancarada do autor, eu diria que o livro vale muito a pena ser lido a depender do público. Li algumas análises que se dedicaram a detonar o conteúdo, rechaçando-o completamente inútil. Eu discordo, e vou explicar porque.

Desde 2014 estamos sendo bombardeados com a lava jato que tomou lugar na pauta da mídia brasileira mais do que o próprio futebol. Porém, é tanta informação que muitas vezes o cidadão não consegue absorver tudo aquilo que está acontecendo. Estou falando do cidadão comum, aquele que trabalha, estuda, cuida da casa, da família, tem uma lista de obrigações diárias e não consegue parar corriqueiramente para se inteirar de todas as notícias com atenção.

É para este público que eu acho que o livro vale muito a pena ser lido, com aquela dose de ceticismo que já ressalvei. Este livro, para estas pessoas, ajuda entender onde se encaixam alguns personagens das investigações que ouvimos falar às vezes e não sabemos direito quem é, por que é, como e quando foi parar ali: só sabemos que está sendo investigado e pronto.

Nomes como Alberto Youssef, Paulo Alberto Costa, Delcídio do Amaral, Rodrigo Rocha Loures e tantos outros: é fácil ouvir estes nomes e imediatamente relacioná-los à lava jato, mas, saber onde cada um deles se enquadra no esquema sujo pode ser frustrante para o cidadão que não consome todas as notícias do diaadia, mais por falta de tempo do que falta de interesse.

De fato, para os mais inteirados, aqueles que acompanharam e acompanham todos os desdobramentos da operação, seja através da mídia ou como for, aqueles que conhecem as manobras políticas nas suas estruturas, e até mesmo os envolvidos, o livro não agrega em nada. Para jornalistas que fizeram ou fazem cobertura do caso, para os juristas que estão por dentro, para as rodas de debates mais intrincadas com tudo isso, os bastidores não revelam nada além do que é evidente: manobras pelo poder, toma-lá-dá-cá, puxões de tapete, acobertamentos mútuos e todo esse esquema da politicagem obscura de Brasília. Nada de novo às sombras dos poderes.

Apesar disso, mesmo para esses mais entendidos, ainda há revelações que, se não são bombásticas, são pelo menos interessantes, como a peregrinação que o ex PGR narra ao seu gabinete dos políticos que temiam entrar na lista dos investigados, a tão temida (para eles) “lista de Janot”. Iam ao seu gabinete para sondar as chances de entrarem na lista, para cultivarem “laços de amizade” ou mesmo para implorar para não serem investigados. Em um trecho, o autor narra:

“Tempos depois, um amigo me perguntou se eu não me sentia constrangido com o choro de tantas autoridades. Afinal, eram homens que estavam no topo da pirâmide. Estavam acostumados a falar grosso, a dar ordens, a ditar o que o restante da população devia ou não devia fazer. De repente, aqueles respeitáveis senhores estavam ali, expondo um lado emocional desconhecido da maioria dos mortais.”

Outro momento interessante do livro é a sua “guerra” com a mídia, na tentativa de manter secretas as operações para que não vazassem para a imprensa. A revelação das operações que ainda estavam sendo preparadas, se publicadas, certamente comprometeriam a efetividade das investigações. Em um dos trechos que achei mais dramático é quando o PGR recebe a ligação de Lauro Jardim, jornalista do jornal O Globo, perguntando a respeito da homologação da delação de Joesley Batista, no caso Temer, cujo áudio ainda não tinha sido vazado e estava sob segredo de justiça. Segundo narra, o ex procurador-geral se embrenhou numa batalha para convencer o jornalista a não publicar a matéria e colocar tudo em xeque, pois a sua publicidade antes da hora poderia simplesmente fazer com que os investigados destruíssem as provas antes que conseguissem apreendê-las. É agoniante ver a afã de certos jornais em dar um furo mais bombástico que o outro, sem considerar que isso pode destruir uma investigação por completo, fazendo com que os criminosos do colarinho branco saim completamente impunes. Pelo menos essa foi a sensação que me passou. Em um trecho ele diz:

“A publicação de qualquer informação sobre o caso poderia colocar a perder boa parte do nosso trabalho. Tínhamos um caso maior que o da Odebrecht na mão, e tudo poderia ser jogado no lixo por causa de um estúpido vazamento. Não, aquilo não poderia acontecer. Teríamos que convencer o jornal a não publicar nada.”

O autor segue narrando o drama, que culminou com os vazamentos antes da hora, apesar das negociações para que não ocorressem. Estes são os bastidores do fatídico áudio de Temer publicado em 2017, cuja controvérsia dos vazamentos prevalecem até hoje. O autor resvala nesse ponto ao se perguntar:

“Quem passou a informação sobre o acordo de delação dos irmãos Batista para o Globo? Eu me fiz essa pergunta algumas vezes. E a resposta plausível era uma só. O vazamento só podia ter sido coisa de gente ligada aos delatores [...]”

Apesar desta sua conclusão, muitas versões diferentes, especuladas principalmente pela mídia, tem um tom diferente de quem seria o autor dos vazamentos. Alguns jornais chegaram insinuar que o próprio MPF vazou os áudios. Aliás, não só os áudios, mas uma série de vazamentos que ocorreram durante a operação em sua gestão na PGR que até hoje são questionados. O autor, é claro, assume sua posição de defesa. Quanto a isso, me lembro de uma frase que resume bem o espírito do livro: “Quem conta a história é quem vence a guerra”, e eu completo dizendo que quem vence a guerra, conta segundo sua versão. Por isso reafirmo que toda a narração está eivada de subjetividade. É preciso manter o ceticismo para conseguir absorver o conteúdo do livro sem tomar o gato por lebre.

No mais, o livro ajuda o cidadão comum, aquele do diaadia, sem tempo de acompanhar toda as notícias que são bombardeadas pela mídia, a entender toda a complexidade e alcance do esquema de corrupção. Não é um livro técnico, pelo contrário, a linguagem é simples e direta. Alguns trechos parecem um romance da própria vida do autor, como quando narra os acontecimentos que envolveram o falecimento do irmão (que nada tem a ver com a lava jato) e os seus dotes culinários.

Notadamente, Nada Menos que Tudo não é um livro para juristas sustentarem qualquer posição técnica ou doutrinária a respeito das investigações. Ali está eivado de impressões pessoais apenas. Não é um livro para ser tomado como base jurídica sob quaisquer aspectos. Mas, para os mais leigos que querem entender como funciona o esquema da politicagem com toda sua sujeira, é um bom ponto de partida, ressalvando, é claro, a subjetividade. Na minha opinião, se o livro tem uma mensagem clara, é aquela que já deveríamos ter aprendido a muito tempo: que não existem heróis na política, não existem mocinhos e nem bandidos: existe jogo de interesse.

Tá aí um bom exercício para desenvolver essa habilidade: ler o livro do Janot. Certamente ajudará enxergar que, na política, interesses muitas vezes sobrepõem caráter.

Se você se sente perdido na avalanche de acontecimentos dessa rede de corrupção e quer entender quem é quem, como se alinham os acontecimentos e principiar a um ordenamento de raciocínio próprio, mesmo que precário, ante ao subjetivismo do livro, vale a pena ler. É um bom ponto de partida que pode ser complementado com outros livros, filmes, documentários... Outros pontos de vista.

Fica a sugestão.

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